quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Evolução


O que preciso é de me sentir como nunca senti, ou melhor, como um dia pude saborear esse sentimento mas que não saboreio mais, um sabor que já não passa pelo simples facto de não sentir o que pude um dia sentir… Uma força, um aperto, um muro de entre os braços por mim apertados, um bater, um bater forte num peito que teimava em esconder o rosto quando corria do medo que me fazia sentir este medo, este simples medo que hoje sinto! Hoje esse peito não existe, não tem o bater que tinha, acho que não bate mais ou pelo menos eu não o oiço como ouvia dantes, se ainda bate então o vento leva cada compasso, cada toc toc toc, cada ritmo certo da sua segurança impenetrável. Quem ousaria um dia dizer que hoje já não conseguiria falar mais contigo, ouvir os teus conselhos outrora deixados ao acaso? Quero-os ouvir, escutar como escutava dantes, quero ter o poder de decidir quando e como o mundo anda, gira, vive, como o mundo tem ou não o direito de me magoar com o teu afastamento! Se existisse algo que me tornasse imortal, até paranormal, seria a necessidade simples de te olhar novamente, correr para os teus braços sempre abertos e aconchegar o meu rosto sempre assustado no teu peito e ouvir o eterno, toc toc toc do teu coração, no mesmo ritmo que me acalmaria e me levaria a saborear novamente a simples chuva de inverno que hoje já nem quero mais escutar!

“Tu és forte isso passa! Demora, mas passa…!”

Forte? Eu? Quem disse isso certamente mentiu, certamente não está bem a par da realidade dolorosa que se torna cada acordar meu, cada despertar, cada olhar enfadonho no meu espelho matinal… Forte? Nunca… Nunca o fui, tremi sempre a cada roncar do trovão, a cada explosão do céu como que gritando toda a sua glória… Um céu ao qual não olho mais, um céu que me custa ver cada pedaço do seu azul, ou da sua estrela cintilante que teima em brilhar como que sorrindo pela felicidade que hoje simplesmente me enraivece… Raiva… Sim, isso sim, uma raiva simplesmente poderosa que me leva a vontade de uma vingança eterna, de uma vingança simplesmente sangrenta, quero levar a milha lágrima e cruza-la com o sangue de quem ma fez derramar… TOC TOC TOC… Agora soa o meu coração como que batendo os tambores de caça, tornei-me no predador, tornei-me naquilo que eu nunca conheci… A Raiva, a doce e suave sensação da raiva, de uma raiva que me eleva nas vontades que nem a minha boca se atreve a prenunciar com medo que só o seu simples facto de soletrar possa causar o maior dos pecados! O meu consciente constrói cada frase com banhos de sangue, rios de sangue simplesmente entornados num corpo que nunca me disse nada, sofrível, maquiavélico, demoníaco… Tudo misturado naquele corpo por si só inundado no seu próprio sangue, sem qualquer razão aparente para ninguém, mas que a mim me eleva ao elixir do centro espiritual, que me leva o sorriso de raiva estampado no meu rosto… Evolução, simples evolução de um ser fraco e manipulável para um ser que se defende e conquista cada pedaço do seu próprio ser… Uma conquista da necessidade simples de se sentir… Ahhhhh, grito como que acumulando a força que ganhei em mais um corpo desnudado e ensanguentado, uma força nova, um homem novo, uma raiva simplesmente eterna que disputa cada espaço no meu corpo!

1 comentário:

  1. É bom saber que há pessoas que conseguem demonstrar o que sentem por palavras expondo-se, mesmo que isso seja demasiado cru e marcante para alguém fora do contexto ler.
    Obrigada pela honestidade.
    Beijo
    Sarinha Lia*

    ResponderEliminar