
Cansado da omnipresença da imensidão de um legado que simplesmente não pedi, um legado imposto por decisões que nunca tomei, por palavras que nunca disse… Prefiro sentar-me e reflectir em como a necessidade não passa da simples vontade de nada querer, para que pedir? Sento-me apenas, deixo que o relógio avance como que me levando a novas portas de escolhas, escolhas de vazios inconfundíveis, de vazios que em nada me transportam para a pura e eloquente supremacia da minha evolução como ser… Estas escolhas são simplesmente escolhas de nada, de uma nada em torno de muito menos, um menos que apenas nega qualquer necessidade ou possibilidade de querer o que se pode, levando sempre a querer o que nos é impossível!
Cansado, cansado de nada fazer em relação ao que poderia ser, aos sonhos que poderia sonhar, às coisas que simplesmente poderiam me transformar num rosto de um estátua habitada de negligencia e deserta de inteligência por quem a contemplaria, uma estátua que seria de porcelana pronta a quebrar a cada segundo que passasse… Dessa porcelana nada seria achado, tudo se transformaria pela perda do que nada trouxera!
Cansado, cansado até de mais, cansado de esperar, cansado de respirar, cansado de estar cansado, cansado de uma vida de infortúnios e devaneios, de sortes e azares, cansado simplesmente de viver uma história que nunca será a minha história, será sempre a história que alguém escolheu para mim… Quero ser a minha própria personagem, quero ser o que eu decidir ser, mas apenas me poderei manter nesse querer durante as palavras que nunca disse, durante as palavras que caiem directamente mudas da minha boca para a caneta da minha mão! E é nessas palavras, nessas conjugações em que o meu mundo se pinta com as minhas cores, em cada frase, é em cada frase que ganham as formas com que eu sonho, em cada parágrafo, em cada exclamação que recupero as forças que me levam á exaustão, ao cansaço da omnipresença deste trágico legado a que me obrigo! Quero desviar esse legado, pô-lo de lado e respirar outra personagem, quero voar por entre os céus das minhas palavras, navegar por entre cada suspiro do meu respirar, quero ser algo mais, algo maior… mas não consigo, sinto-me cansado desta luta a que me obrigo, a esta luta que combato para defender um legado que não o meu, um legado que nunca pedi!
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